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Itamaraty
| Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Atribui-se ao economista e diplomata Roberto Campos a frase “o Brasil nunca perde a oportunidade de perder uma oportunidade”, que pode ser aplicada com exatidão para sintetizar o último ano da política externa brasileira. As 15 viagens internacionais de Lula a 24 países durante um total de 62 dias, incluindo reuniões com dezenas de chefes de Estado, dão à militância uma série de imagens para dizer que “o Brasil voltou”. Ao menos em um aspecto, o slogan foi realmente verdadeiro: afinal, o Brasil voltou a abraçar ditadores e fazer as piores escolhas em termos de relações internacionais.

Em praticamente todas as vezes em que poderia ter mostrado estar à altura das democracias consolidadas do mundo, a diplomacia brasileira optou por se apequenar a ponto da irrelevância e da subserviência ou alinhar-se abertamente com o que de pior existe, defendendo ditaduras, relativizando atrocidades e tentando a todo custo aplicar um desprezível relativismo moral que equipara agressores com vítimas.

Em grande parte – se não na totalidade –, o desastroso papel da política externa brasileira se deve ao desempenho do próprio presidente Lula. Suas declarações equivocadas, quando não cinicamente atreladas à defesa do indefensável, colocaram o país em situação delicada, cada vez mais distante das economias e democracias consolidadas. E o outrora festejado presidente brasileiro, antes visto como “o cara”, já não tem o mesmo poder de sedução e nem de barganha no cenário internacional.

Lula não foi capaz de fechar o acordo entre Mercosul e União Europeia, desprezado por um bom tempo pelo petista antes de virar prioridade durante a presidência temporária do bloco sul-americano entre junho e dezembro. Mesmo negociando diretamente com os países da União Europeia, Lula e sua lábia não tiveram sucesso em convencer os países europeus a renunciarem ao protecionismo. Nem o presidente da França, Emmanuel Macron, conhecido por ser um entusiasta de Lula, deixou-se levar: o francês abertamente se colocou contra a proposta e hoje o acordo ainda parece longe de ser concretizado. O Brasil tampouco conseguiu colocar-se como uma economia emergente relevante dentro dos Brics, bloco que englobava originalmente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Lula tem pouca influência política no grupo e o Brasil deve perder ainda mais importância com a expansão e entrada de outros países no bloco.

Afinal, o Brasil voltou a abraçar ditadores e fazer as piores escolhas em termos de relações internacionais

Já na defesa de autoritarismos, o desempenho da diplomacia brasileira foi notável. Coube a Lula neste último ano o papel assombroso de embaixador de ditadores, em especial o da Venezuela, da qual o Itamaraty tratou de se reaproximar tão logo Lula chegou ao poder. Em maio, Nicolás Maduro veio ao Brasil participar de um encontro dos presidentes da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e foi recebido com todas as pompas e circunstâncias. Se em outros países o bolivariano evita colocar os pés por medo de sanções que podem incluir até a prisão, no Brasil, graças a Lula, Maduro foi recebido pela guarda de honra da Força Aérea Brasileira, que, seguindo os protocolos previstos, prestou continência ao ditador. Uma cena lamentável, que certamente entrará para a história como um triste exemplo do nível de subserviência da diplomacia brasileira ao que pior existe no mundo.

Outro ponto negativamente memorável da diplomacia brasileira foi em relação à guerra na Ucrânia. O Brasil demorou a condenar a invasão do território ucraniano pela Rússia – que mesmo assim veio de forma tímida, somente após uma enxurrada de críticas internacionais diante da insistência de Lula em tentar cravar a ideia de que tanto a Rússia quando a Ucrânia eram responsáveis pelo conflito. O país também se recusou a assinar sanções contra a Rússia e Vladimir Putin. Entre declarações desconexas e simplórias, que deixaram evidente o despreparo do presidente brasileiro, ele chegou a lançar-se como um “negociador da paz”, sugerindo a criação de uma espécie de Clube da Paz com outros países para chegar a uma solução “pacífica” para a guerra. A ideia, claro, acabou no esquecimento. A mesma distorção moral que equipara agressores e vítimas foi aplicada pela diplomacia brasileira em relação aos atos de barbárie cometidos pelo Hamas em outubro. O governo brasileiro mostrou – e ainda mostra – resistência em condenar com o vigor necessário os atos de terror praticados pelo grupo terrorista palestino e insiste em tentar equiparar as ações militares de Israel contra o Hamas com os atos terroristas, repetindo como um disco arranhado a mesma máxima de colocar agredidos e agressores no mesmo patamar.

Neste primeiro ano, a diplomacia brasileira encabeçada por Lula não deu mostras de ser capaz de entender as complexidades do cenário internacional, acumulando fracassos e desgastes desnecessários. Seguiu à risca a máxima de Roberto Campos: não perdeu a oportunidade de perder a oportunidade de ocupar um papel relevante no cenário internacional. Resta saber se os próximos anos serão iguais.

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