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bet 160 - Que saudades dos tucanos
| Foto: Agência Câmara

Há na política britânica um termo específico para designar o modo de organização dos partidos de oposição: o shadow cabinet. É uma estrutura quase que paralela ao governo de turno. Serve não apenas para apontar erros e fazer críticas, mas também propor alternativas e formalizar um discurso coerente visando a conduta uniforme de seus membros e a construção de uma proposta estruturada como opção eleitoral a quem está no poder. No Brasil, Lula surfa também pela completa falta de organização e seriedade de quem deveria lhe fazer frente. A oposição bolsonarista é canhestra no limite do amadorismo.

No último dia 20 de dezembro, durante a promulgação da Reforma Tributária, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, repreendeu parlamentares de oposição pela inadequação e fanfarronismo com que trataram o presidente da República, que foi vaiado e ofendido no plenário, com alguns o chamando até mesmo de “cachaceiro”. “O que eu pediria nesta Casa é para o que aconteceu, aconteceu, e nós terminarmos essa sessão com o maior nível de respeito possível a todas as autoridades constituídas”, disse. Os deputados e senadores saltimbancos, ignoraram, mostrando que o limite do que entendem ser oposição é a gritaria e o ruído calculados para alimentar suas respectivas redes sociais.

No Brasil, Lula surfa também pela completa falta de organização e seriedade de quem deveria lhe fazer frente

Ao longo de 2023, Lula estendeu o leque de sua aliança política para além do centro. Parte do Republicanos, e até alas do PL, o partido de Jair Bolsonaro, entraram na órbita do governo. Essa movimentação se deu obviamente, pela possibilidade de ocuparem espaços dentro da estrutura administrativa, mas também porque há ciência de que a oposição tem pouca perspectiva.

Gilberto Kassab, aliado de Tarcísio de Freitas e uma das figuras políticas com maior capacidade analítica no Brasil, já projeta até a reeleição de Lula. "Dificilmente o presidente Lula não se reelege em 2026. Só se ele cometer muitos erros”. E nesse cálculo também é importante considerar a inelegibilidade irreversível do próprio Bolsonaro, o único personagem que hoje é capaz de fazer frente eleitoralmente ao atual presidente.

Todas as principais pautas do governo foram aprovadas no Congresso Nacional. A agenda econômica de Fernando Haddad, diga-se, tem o aval tanto de Lira quanto de Rodrigo Pacheco, presidente do Senado. E nesse bojo estão o Arcabouço Fiscal e a Reforma Tributária, projetos que ajudaram o país a melhorar sua nota no ranking de investimento das agências de risco internacionais. O deputado que chama Lula de “cachaceiro” tem o que a dizer sobre isso? O que ele apresenta de concreto além da adjetivação oca e improdutiva?

O melhor argumento do deputado bolsonarista Abílio Brunini (PL-MT), por exemplo, foi se posicionar contra a Reforma Tributária porque “comunistas” supostamente eram a favor. É um juízo tão absoluto quanto medíocre e falso, ainda que a reforma tenha vários problemas. Por essa linha também foi o próprio Bolsonaro, que tentou constranger o governador Tarcísio de Freitas, insuspeito de esquerdismo, de apoiar o texto. A sabatina de Flavio Dino foi outro episódio revelador da incapacidade da oposição bolsonarista em formular algo além da conspiracionice.

Estridência, não é sinônimo de competência. A oposição séria e institucionalmente responsável é, como ensinam os britânicos, uma arte. No governo anterior de Lula, o PSDB era acusado de ser omisso na fiscalização do governo e pouco incisivo nas críticas. Mas pelo menos não chafurdava no ridículo. Isolado e sem relevância dentro do Congresso, o bloco bolsonarista é a oposição que Lula pediu a Deus. Dá até saudade dos tucanos.

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