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Parlamentares de oposição em ato de apoio ao deputado Carlos Jordy, líder da oposição na Câmara.| Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Há algumas semanas, o perfil Choquei, um dos responsáveis por postagens que desencadearam o suicídio da jovem Jéssica Canedo, de 22 anos, voltou a atuar normalmente nas redes sociais, depois de um breve período sem postar. Após uma mobilização de alguns dias contra o perfil, que incluiu até mesmo a coleta de assinaturas pela oposição no Congresso para a abertura de uma CPI da Máfia Digital, o assunto esfriou e o cartel do cancelamentoretomou suas atividades.

O caso da Choquei reproduz um padrão de comportamento da oposição com relação a escândalos envolvendo a esquerda, o governo e os abusos do Judiciário: reações de curta duração que caem no esquecimento com o passar dos dias.

São duas as medidas mais comuns de parlamentares da oposição logo após escândalos de grande repercussão: coletar assinaturas para criar Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) – como ocorreu no caso da Choquei – e protocolar pedidos de impeachment contra políticos ou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Têm sido raros, contudo, os casos em que essas medidas são realmente levadas à frente ou resultam em ações concretas.

Nos dias seguintes à morte de Cleriston Pereira da Cunha, o Clezão, no Presídio da Papuda, por exemplo, a oposição tanto promoveu uma coleta de assinaturas para a instauração da CPI do Abuso de Autoridade quanto protocolou um pedido de impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes. Até agora, nenhuma dessas medidas surtiu efeito concreto, ainda que os parlamentares tenham obtido as assinaturas suficientes para a instauração da CPI. Além disso, Clezão praticamente deixou de ser assunto nas falas de políticos da oposição.

O cientista político Paulo Kramer observa que, ao contrário do que a esquerda faz em casos como o do assassinato de Marielle Franco, a direita raramente consegue se concentrar e persistir em um só tema por um longo período, o que acaba lançando um sinal negativo para a opinião pública: o de que o assunto não é realmente importante. "A esquerda dá sinais de muito maior organização quando seleciona temas que para ela são relevantes e martela incessantemente esses temas, não deixa caírem no esquecimento. Se não houvesse esse esforço deliberado, provavelmente as coisas cairiam no esquecimento", diz.

Para ele, "falta à direita coordenação estratégica da sua comunicação". "No Congresso, a direita cede muito ao oba-oba, é indisciplinada, e é uma fogueira de vaidades. Quase sempre é incapaz de se coordenar para participar das CPIs, das audiências públicas, às quais são convidados membros do governo, para dar uma prensa nesse pessoal do governo. Nessa falta de coordenação estratégica de comunicação, a direita comprova mais uma vez a sua imaturidade", opina.

Pedidos de impeachment contra os ministros e membros do Executivo são protocolados com frequência, mas arquivados ou esquecidos posteriormente, o que tem feito aumentar o ceticismo dentro da própria direita quanto às reações dos parlamentares contra a esquerda, gerando acusações de demagogia. Em julho de 2023, por exemplo, 57 deputados apresentaram um pedido de impeachment contra o presidente Lula por suas relações com o Foro de São Paulo. Ante uma postagem da deputada Carol De Toni (PL-SC) sobre o assunto, um usuário respondeu: "Vocês pedem, e quem vai dar seguimento? Ninguém. Desculpa, mas vejo muitos políticos jogando para o público".

Em novembro, após o caso da "dama do tráfico" que se reuniu com membros do Ministério da Justiça, a deputada Júlia Zanatta (PL-SC) fez uma postagem nas redes anunciando um pedido de impeachment contra Flávio Dino e a convocação do então ministro para esclarecer a situação na Câmara. "Não já chega de convocar [...] para mentir na Câmara?", respondeu um usuário.

Outros casos que ensejaram pedidos de impeachment, tentativas de instaurar CPIs e outras medidas imediatas, mas acabaram sendo esquecidos, incluem as falas do ministro Luís Roberto Barroso na União Nacional dos Estudantes (UNE), as negativas de Dino em enviar as imagens das câmeras do Ministério da Justiça no 8/1 e os abusos do STF no caso da polêmica do aeroporto de Roma envolvendo Alexandre de Moraes.

Para o cientista político Christian Lohbauer, as reações da direita duram pouco porque a maioria dos parlamentares considerados de oposição não tem interesse autêntico nas bandeiras que defendem. "Os parlamentares estão praticamente inoperantes. O Legislativo está inoperante. É um posto avançado de ruído. Há hoje uma aliança consolidada entre o Judiciário e o Executivo, que é um fenômeno desses que destroem a democracia. O fim do equilíbrio dos poderes gerou isso. Quem é que deveria fazer o trabalho sistemático de contraponto ao Executivo? O Congresso Nacional e as oposições constituídas – que estão engolidas, com exceção de alguns heróis, que não passam nem de 10% dos parlamentares. O resto não está interessado em nada, não tem plano de país, não está interessado em nenhum tema que não seja o balcão de negócios. Isso não é novidade, e só piorou ultimamente, porque quem sabe fazer esse jogo melhor do que qualquer um é o partido que está no poder hoje", comenta.

Oposição precisa investir em esforço sistemático de longo prazo, diz analista

Lohbauer considera que as outras duas peças do tripé de pressão contra o Executivo e o Judiciário, que poderiam ser a imprensa e a população, também estão inativas por diferentes motivos. No caso dos meios de comunicação, ele considera que o alinhamento com os grupos que detêm o poder está gerando a omissão. "O ambiente de comunicação, no Brasil, é quase o de um regime de exceção", afirma.

A população, por sua vez, está anestesiada diante da relativização dos valores do Estado Democrático de Direito, segundo Lohbauer. "Tudo é relativo, e interessa para uma parte desse espectro político que tudo seja relativo, porque, se tudo é relativo, você domina o ambiente burocrático e é dono do poder", afirma. Os fracassos em derrubar os responsáveis por grandes esquemas de corrupção que atingiram o país favoreceram o ceticismo, acrescenta Lohbauer. "O povo fala: 'Já me dediquei muito a isso aí, fui para a rua… E olha o que aconteceu, voltaram todos, estão repetindo o mesmo discurso". Então, o povo também desconecta", observa.

Nessas circunstâncias, para Kramer, a luta por vitórias pontuais no debate público não será suficiente: é necessário que os partidos de oposição tomem mais a sério e organizem melhor a formação intelectual de seus quadros. "A gente nota a inanidade intelectual da direita, de uma maneira geral. O PT lê os livros errados, pensa de forma errada, mas, pelo menos, lê e pensa. A Fundação Perseu Abramo, que é o instituto político do PT, foi uma das primeiras a perceber que a população brasileira, de uma maneira geral, estava pendendo cada vez mais para a direita, para as ideias conservadoras, porque fez uma grande pesquisa nacional sobre isso. E, sobre os resultados dessa pesquisa, debruçaram-se inúmeros cientistas políticos, sociólogos e especialistas convidados da Fundação Perseu Abramo que, em seminários, mastigaram essas ideias, e mais do que isso, exploraram as consequências dessas ideias", comenta.

Para ele, não há a mesma preocupação por parte das legendas que abrigam hoje a maioria dos políticos da oposição, como o PL, o PP ou o Republicanos – ainda que, na opinião de Kramer, este último partido esteja começando a se destacar, por causa do aprimoramento da Fundação Republicana.

"A gente não vê da parte do Instituto Alvaro Valle, do PL, da Fundação Milton Campos, do PP, ou mesmo de uma das mais organizadas, que é a Fundação Republicana, dos Republicanos, nenhum esforço sustentado, sistemático, programado, de longo prazo, para travar a guerra das ideias contra a esquerda. É na falta de infraestrutura intelectual que a direita mostra sua grande inferioridade em relação à esquerda", diz.

Além das fundações associadas a partidos, Kramer recorda que o trabalho de base como um todo, especialmente no campo da educação, é essencial para o crescimento de uma oposição real. "A esquerda perdeu a luta armada [contra a ditadura militar] nos anos 1970, refluiu para as salas de aula, e nunca mais saiu de lá. E, a partir daí, fez a cabeça de sucessivas gerações, inclusive daquelas autoridades que hoje são membros do Ministério Público e do Poder Judiciário. Se a direita não se convencer de que precisa bem jogar este mesmo jogo e preparar com paciência estratégica e clareza estes novos quadros da direita, vai acontecer o seguinte: ela pode ganhar ocasionalmente esta ou aquela eleição, pode até voltar ao poder federal, à Presidência da República, mas não conseguirá desmontar esse deep state que é constituído de pessoas e de grupos que foram educados pela esquerda desde a pré-escola", conclui.

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